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[RP] Um encontro peculiar

Leticia


Depois de deixar a Casa da Babilônia, Leticia dirigiu-se a sua morada e preparou-se para viajar rumo a Santarém. Após um agradável banho ela sentou-se à cama pensativa, escolhendo mentalmente a roupa que a deixaria com um ar respeitável, mas que ao mesmo tempo ressaltaria os seus encantos. Depois de muito pensar, resolveu-se por um vestido em tons de verde e dourado.

O decote era generoso, mas ainda assim, tinha um aspecto sóbrio, sem abrir mão de seus encantos. Certamente o seu cliente apreciaria. Ela arrumou os cabelos prendendo-os em cima atrás, mas deixando os cachos loiros de que tanto se orgulhava, soltos. O aspecto ficou elegante e sensual, mas sem perder o decoro, que o seu cliente fazia questão. Estava respeitável. Perfumou-se parcimoniosamente, e assim, estava pronta para o seu trabalho.

Vestiu uma capa verde escura e deixou sua morada. Foi a praça e tomou uma carruagem para o destino proposto.

Leticia chegou um pouco antes do combinado e ficou ali, em frente a Sé de Santarém a esperar o cocheiro que a levaria ao seu encontro peculiar. Anoitecia e ficava mais frio com o passar do tempo. Uma bela lua cheia adornava o céu, e cada vez maior e mais redonda lhe parecia, a medida que o tempo passava.
Enrico
A carruagem que se deslocava a moroso passo desde o norte, de onde saíra, adentrou os muros de Scalabis. A noite começara a chegar mais rápido do que o velho Enrico previra.

-Não devo me atrasar, ou o mestre não ficará nada satisfeito.

Entrando pelas ruelas que davam acesso ao centro e parou defronte a Sé. Não se podia dizer nem de longe que aquele era o lugar mais propício para aquela espécie de encontro, mas era o menos suspeito. Enrico desceu da carruagem e se aproximou da Moça.

-Letícia, siga-me. Meu senhor espera-te no carro.
Leticia


Ao ver a carruagem se aproximar Leticia tranquilizou-se, pois por um momento ela temeu que seu cliente tivesse desistido do encontro. Quando viu o mensageiro descer ficou ainda mais aliviada. Estava ansiosa e curiosa para ver quem era o senhor que ela deveria servir. Ela levantou um pouco o capuz da capa, confirmando sua identidade.

- Sim, claro, vamos.

Letícia acompanhou o homem indo até o carro indicado por ele, onde pelo visto, ela já era aguardada.

Enrico
Enrico levou a moça até o coche e abriu a porta para que ela entrasse

O compartimento, apesar de pequeno, era aconchegante. A madeira se abria em pequenos furos e frestas que formavam arabescos e figuras geométricas, os quais permitiam a entrada da ventilação e luz, mesmo na estrada escura. Os bancos estofados eram macios, recobertos de veludo e exalavam um aroma bom, o que indicava que o proprietário era uma pessoa de gosto (ou olfato) refinado, ou ao menos uma pessoa que tinha gosto pela limpeza. Havia velas, vinho quente e alguns pequenos baús sob os bancos.

-Senhor, eis aqui Letícia.


Muito bem Enrico- Disse o senhor, parcialmente encoberto pela sombra, antes de acender uma vela. - Vamos adicionar um pouco de luz e calor ao ambiente, a noite já está cerrando, e nesse passo só chegaremos ao amanhecer.

O mensageiro/cocheiro voltou a subir para a frente, para guiar a carruagem, enquanto o senhor fechou a porta e serviu-se de um copo de vinho temperado.

-Sinople e Or. Minhas cores preferidas. - disse, exibindo seu manto que tinha a mesma cor. - Vamos, sirva-se.
Leticia


Ao adentrar a carruagem e ser apresentada ao senhor que havia contratado seus serviços, Letícia atentou a todos os detalhes que lhe pudessem fornecer informações preciosas sobre aquele homem, em especial seus gostos.

Ela sentou-se ao lado do homem, e diante do oferecimento do vinho temperado ela aceitou, pois ainda sentia o frio da noite dentro de si.

O interior da carruagem era incomparavelmente mais aconchegante do que a porta da igreja. Já lhe incomodava um pouco o fato de estar ali com as intenções que estava. Entrar na carruagem aliviou-lhe de um peso em sua alma, já tão carregada.

- Aceito com prazer.

Ela disse, sorrindo satisfeita para o homem que exibia o manto com cores similares ao vestido que escolhera ao acaso.

- Interessante, uma feliz coincidência.

Ela disse, dirigindo um novo sorriso ao homem, e despindo a capa que lhe cobria os ombros e os belos cachos loiros. Achegou-se mais a ele.

- Aqui é bem mais quente, e com esse vinho, fica ainda melhor. Espero que minha companhia possa igualmente espantar o frio e o tédio. Vou me esforçar para isso.
Enrico
A estrada de Santarém seguia pelas margens do Tejo. Muitas vezes, a terra dava lugar a um chão pedregoso onde as carruagens tinham de ir devagar para não partirem as rodas, e mesmo assim, os passageiros ainda sofriam com os solavancos. Ao notar que o trecho ruim se aproximava, Enrico abriu a pequena janelinha e notou seu senhor já a passar as mãos pelo corpo da mulher que havia sido contratada.

-Senhor, aí vem os solavancos, preparem-se pois a carruagem vai sacolejar.

-Sim, Enrico. Lhe garanto que vai sacolejar... Não vai, Letícia? - disse o senhor, já sem o manto,a gargalhar sonoramente.

Sem se incomodar com a "distração do patrão", Enrico entrou pelo caminho pedregoso e seguiu, devagar, enquanto o coche sacolejava.
Leticia


Leticia mal se apercebera de que a carruagem chegara o um trecho ruim da estrada, pois o sacolejar ali começara pouco depois que alcançaram a estrada de Santarém pelas margens do Tejo. Quando o homem retirou a capa e o manto, Leticia pode perceber que tratava-se de um homem jovem e forte. Isso agradou muito a mulher, que já imaginava que tanto sigilo escondia algum abade pançudo, velho e calvo. Ao contrário de suas expectativas aquele era um jovem fogoso e de bela barba. Isso tornaria a viagem ainda mais "sacolejante" pois Letícia iria se entregar ao prazer daquela bela companhia sem precisar fingir nada. Seu vestido fora desabotoado, e ela já estava pronta para a diversão,enquanto a carruagem seguia pela madrugada.

Ela buscou uma posição confortável que não a deixasse cansada e alquebrada quando chegassem ao fim daquele trajeto. Isso foi um desafio, mas com um pouco de prática e criatividade sempre é possível obter o melhor.

"-Senhor, aí vem os solavancos, preparem-se pois a carruagem vai sacolejar.

-Sim, Enrico. Lhe garanto que vai sacolejar... Não vai, Letícia? "


Esse diálogo entre o senhor e seu criado deixou a mulher a rir.

- Ainda mais, meu senhor? Essa é mesmo uma viagem muito agitada. Gosto disso.

Ela respondeu, em meio ao arfar provocado pelas carícias do jovem senhor. Aquele certamente era o baloiço que Letícia apreciava.
Enrico
Após algum tempo pela estrada pedregosa, voltaram a pegar estrada tranquila. Dentro da carruagem no entanto, o sacolejar seguiu, como se imaginava. Risadas e gritinhos, dentre outros sons, enchiam o veículo.

Por volta da hora décima, pararam num pequeno povoado, de não mais que dez casinhas de pedra e madeira, além de uma taverna pequena e escura. Ao descer do seu lugar, foi até a porta da carruagem e abriu.

O senhor parecia bem entretido, amarrotado e aos beijos com a moça que lhe contrara o criado.

-Estarei alimentando os cavalos senhor... Caso saias... - Levou com a portinhola no nariz, sem sequer concluir a frase. Era evidente que o senhor não ia sair. Voltou a fechar a porta da carruagem. Mas sequer teve tempo de dar três passos.

-Enrico!

-Sim senhor?

-Mais vinho. - risadas bêbadas se ouviam do interior da carruagem, enquanto um único braço do jovem senhor estendia-se fora da janela através da cortina, segurando o odre vazio.
Leticia


A alma do senhor já parecia alegre pelo vinho e Leticia ria com ele, e bebia o que ele lhe oferecia. Mas para aquela mulher acostumada a orgias e bebedeiras não era tão fácil assim ficar alterada pelo vinho, que lhe era um companheiro conhecido e fiel, quase um ajudante de ofício.

Ela estava bastante sóbria para saber muito bem o que deveria fazer ali, e como deveria portar-se para agradar e satisfazer aquele que a contratara.

Quanto ao vinho, ele escolhera o mais adequado, um vinho temperado suave, para quem desejava conservar o fôlego para a diversão. O vinho poderia sim atiçar o desejo, despertar os sentidos, mas precisava ser bem escolhido. Sua cor tentadora, seu sabor que preenchia a boca e espalhava-se pelo corpo todo em questão de segundos, dava uma sensação de prazer ainda maior. Ele despia as máscaras e facilitava a entrega.

Felizmente aquele fora o caso e até para escolher o vinho, aquele senhor se mostrava um bom amante, o que para ela era uma sorte. Um evento raro, de fato.

Até aquele momento ela correspondera com ardor a cada carícia, a cada beijo que recebera em seus lábios e em seu corpo, cedera ao ritmo imposto pelo senhor a quem deveria agradavelmente servir durante aquela viagem, aquecendo-o entre os seus braços e suas pernas. O vinho facilitava isso, aquecendo e tirando as inibições que poderiam atrapalhar aquele encontro de "amor mercenário". Tornava bem mais fácil a Letícia representar aquele papel.

Agora a viagem tinha uma pausa, mas mesmo assim, o senhor não largou-a, eles continuavam enlaçados. Ela não teria descanso do seu ofício. Ao menos era o que parecia.

Entre uma gargalhada e outra ele entregou pela portinhola um odre vazio, para que fosse novamente cheio pelo criado. A outra mão permanecia ocupada, ainda sobre o corpo da mulher.

Leticia aproveitou esse momento de distração e arrumou sua posição dentro do coche, ergueu as mãos e modelou os cabelos que estavam em desalinho.
Enrico
Quando Enrico voltou com o vinho deparou-se com uma cena relativamente improvável. Seu senhor tinha um livro nas mãos, de cabeça para baixo, enquanto a mulher o olhava. Bateu na portinhola.

-Letícia, pegue o vinho por favor?

Quando a mulher o fez, Enrico voltou a pegar a estrada, já haviam superado a metade do caminho, e a noite ia bem alta. Dentro do coche, o senhor continuava a encenar com o livro.

-Então, Letícia. Não gostaria de sentar no meu colo e ouvir uma história? Acredito que vais gostar. É sobre uma Amazona, que monta e cavalga pelos caminhos do reino.
Leticia


Aquele momento deu-lhe um certo alivio, pois a posição que ocupara no coche até então lhe era um tanto desconfortável. Mas não era ela que estava ali para ser agradada.

Ela fez o que o senhor tão educadamente pediu e recebeu o odre cheio de vinho novo das mãos do criado, dando-o ao senhor.

Diante do pedido do senhor, ela aceitou de bom grado aquele proposta. Sua expressão tinha a ansiedade de uma criança que espera histórias da avó, o que dava um tom divertido ao brilho de seus olhos, que não eram nenhum pouco inocentes.

- Sim, certamente, adoro histórias. Essa parece emocionante.

Ela disse com um sorriso nos lábios e tomando a posição que o senhor indicara, sentou-se em seu colo, encaixando-se ali com toda satisfação. Aquele era certamente o assento mais agradável que ela poderia ter em uma viagem como aquela.
Johnrafael


Após mais algum "trabalho", satisfez-se e deixou que a mulher saísse daquela posição. Os trajes amassados e abertos, os corpos suados e as respirações arfantes refestelaram-se um sobre o outro, numa troca de carinhos entre o improvável par até que a vela que ali estava apagou, e parecia que os dois haviam mesmo dormido.

Os primeiros raios do sol, horas depois, acordaram Johnrafael na carruagem, com Letícia recostada em si. Bateu na janelinha do cocheiro, que imediatamente lhe respondeu.

-Sintra já se aproxima, senhor Johnrafael.

-Muito bem, podes ir mais devagar agora. Vou me aprontar aqui dentro. - passou a mão pelo corpo da mulher, para que ela acordasse. - Acorda, já estamos chegando. Apronta-te.

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Leticia


Letícia estivera dedicada ao prazer do senhor que se mostrara bastante criativo durante aquela viagem tão agradável. Contudo, depois de mais algum tempo de "labuta" em seu "ofício", Letícia estava cansada. Aquela certamente não era uma vida fácil, mas era a vida que ela poderia ter, naquele momento.

Pela expressão do senhor ela percebeu que seu esforço não fora em vão e ele parecia satisfeito, quando pendeu a cabeça e finalmente adormeceu.

Todo aquele esforço dedicado ao prazer cobrava agora seu preço, e Letícia também estava extenuada. Sentia seu corpo mole e no balanço, agora tranquilo, da carruagem, ela adormeceu ao lado do senhor com quem partilhara aqueles momentos no coche. Agora ambos estavam adormecidos.

Letícia foi despertada pelos primeiros raios de sol e pela voz do cocheiro que indicava que chegavam a Sintra. Essas palavras chegavam distantes, aos seus ouvidos semi-despertos. Ela não sabia ao certo se havia ouvido o nome do senhor que a contratara, ou se ainda dormia e sonhava.

Foi quando sentiu as mãos dele em seu corpo, e a voz chamando para que acordasse.

Então ela finalmente despertou, arrumando langorosamente os cabelos, e se contendo para não bocejar.

- E "parecerei" digna. Não se preocupe.

Após aquelas palavras, Letícia esforçou-se por apagar as marcas daquele noite de prazer. Estendeu as mãos sobre o vestido, que tornou a vestir completamente e abotoar, esticando-o com as mãos para ocultar os amassados, com uma considerável habilidade, que indicava que ela era habituada àquilo. Em seguida retirou uma escova de toucador de sua bolsa e modelou suas madeixas com esmero. Passou um lenço sobre o rosto salpicando um pouco de água de colônia, e deu tapinhas em suas bochechas, conferindo a si um ar mais saudável. Em seguida vestiu novamente a capa e as luvas, compondo-se o mais próximo possível do que poderia ser considerada uma dama, naquelas circunstâncias.
Johnrafael


A carruagem parou em Sintra e Johnrafael desceu, caminhando ao lado da mulher. A quem perguntava, respondia:

-Letícia é uma conhecida do Visconde, meu pai, que veio para cuidar de uma tia doente em Lisboa. Ele pediu que a trouxesse até Sintra e daqui lhe pagasse um coche. - e como qualquer ideia maldosa em relação a isso era sempre mantida para si, afinal não se queria ofender a companhia de um jovem mais importante, todos olhavam-na sem aparente desconfiança.

_________________
Leticia


Letícia permaneceu em silêncio apenas ouvindo as justificativas que John Rafael dava a respeito dela. Teria ele feito aquilo outras vezes?

A mulher se perguntou enquanto caminhava ao lado dele, adotando uma postura mais séria e distante que não daria nenhuma insinuação do tipo de relação que mantiveram durante a viagem. Contudo era difícil que sua beleza não chamasse atenção. Por onde andasse haviam olhares cheios de insinuações, mas ninguém ousaria mais que isso ali.

A quem a cumprimentava ela respondia com uma vênia, sempre discreta. Aquele era sem dúvida um arranjo estranho, pois ela poderia ter simplesmente sido paga ali mesmo no coche.

Tal comportamento não deixava no entanto de atiçar a sua imaginação. Era a oportunidade que precisava. Isso certamente viera a calhar. Logo estariam no prédio da Heráldica Portuguesa.


Continua no prédio da Heráldica
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