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[RP] Ateliê - A Donzela Tecelã - tecendo sonhos...

Beatrix_algrave


Beatrix notou o desejo das fiandeiras em especial de Laurinda e Atília. A senhora ruiva sorriu diante do pedido delas, e ficou meio sem graça com a bronca de Atília, principalmente porque ela a tratava como criança.

A tecelã sabia muito bem de quem Atília estava falando. A druidesa nunca aceitou totalmente sua relação com o aristotelismo, e quanto mais próxima dos caminhos de Aristóteles mais Atília reclamava que aquilo deixava a "sua menina" pálida e sem energias. Beatrix realmente se sentia um pouco cansada as vezes, mas aquilo não era culpa dos clérigos, e sim do excesso de trabalho que ela acabava tomando para si. Era seu defeito. "Nada além do melhor é bom o suficiente". Aquele lema perfeccionista tinha lá seu papel no cansaço da ruiva que se desdobrava entre vários espaços diferentes para exercer as atividades que gostava.

- Ah! Não seja injusta. Ninguém anda apodrecendo minha imaginação. Que ideia! Talvez me faltem mais aventuras, mas também não sou mais a jovem de antes, e a vida cobra seu preço. Carrego cicatrizes de guerra, de crueldades... Sou mãe, sou esposa, sou mulher. Eu já me arrisquei demais no mundo, fiz algumas maluquices, mas não me arrependo pois ao menos tenho as minhas histórias. E a hora dourada continua presente, ainda que não da forma que você esperava. Mas tem outros momentos que eu aprendi a apreciar além da escuridão da noite.
Eu sempre respeitei suas crenças, respeite pois as minhas e de Laurinda. Clotilde também fez a sua escolha.


Ela sorriu e tomou um gole de chá. As duas mulheres lançavam suas broncas mútuas entre sorrisos e cumplicidade.

- O que posso falar? Antes de chegar na melhor parte, vou falar da viagem. Bem, a viagem com o Gennaro foi dolorosa, por vários motivos, primeiro ele não parava de reclamar, segundo porque ele criou uma expectativa tão grande sobre "A Agulha" que eu me vi com a minha auto-estima pisoteada. Ao mesmo tempo em que ele parecia crer em minha capacidade, ele me espetava com desdém e incredulidade. Ele parecia nunca perdoar o fato de eu ser mulher. Parecia que quando ele esquecia esse detalhe era feliz e orgulhoso de mim, enquanto discípulo, mas quando ele lembrava se maldizia. Que inferno aquele homem. Ah! E a noite que a capitã se perdeu no mar? Em pleno Mediterrâneo, a escuridão da noite, então veio uma tempestade e nos desorientou. Passamos três dias a deriva sem vislumbrar uma estrela no céu nublado e logo a seguir uma calmaria que nos custou mais dias de viagem quando mal nos movíamos. O Gennaro chorava feito criancinha, enfurnado na cabine, ora praguejando, ora enchendo a cara de vinho.Tinha que dividir a cabine com ele, e era o inferno. Aproveitei a primeira noite de porre dele e escondi as bebidas todas que ele tinha comprado na França, fiz trancarem os barris todos no porão e não teve Christos que convencesse os franceses a abrir o porão. O romano queria matar-me. Ah! Como ele praguejava. Então, ele achou minha reserva de whisky. Gennaro passou dos limites e totalmente bêbado desfilou no convés de ceroulas e começou a cantar com a tripulação. Pior que depois ele não acreditou em nada do que eu contei que ele fez.

Ela disse e entre risos suspirou triste ao lembrar como a morte de Gennaro foi horripilante.

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--Laurinda


Laurinda preferiu não intervir na discussão religiosa entre Atília e Beatrix. Sabia que a druidesa não fazia por mal e que ambas se respeitavam.

- Que sujeitinho mais doido. Não sei como aquele seu amigo, o rei que morreu deixou uma moça na companhia desse doidivanas.

Laurinda comentou após ouvir essa parte do relato.

- Ah! Mas deixa esse chato de lado. Conta da cidade, os telhados eram mesmo de ouro?

Beatrix_algrave


Beatrix sorriu diante do comentário de Laurinda, e resolveu então começar a contar de uma vez por todas como foi sua chegada à Alexandria. Ela estava animada, pois quanto mais pensava a respeito, mas as memórias iam se avivando.

- Depois de uma viagem de quase dois meses  chegamos finalmente à costa de Alexandria, eu havia partido de Portugal no dia vinte e oito de abril e aportamos em Alexandria no dia onze de junho.




- Lá estava o seu famoso farol.  Claro que não era nada que lembrasse aquele que foi conhecido como a sétima maravilha do mundo antigo. Mas mesmo danificado por três terremotos, ele continuava lá, uma ruína abandonada mas ainda imponente do alto dos seus mais de 100 metros de altura. Mas sua luz não mais brilhava nem orientava ninguém. Eu estava no convés e fiquei boquiaberta. Não tinha como não ficar admirada. E eu cheguei na hora mais bela, a hora dourada do alvorecer. O sol batia suavemente derramando sua luz sobre a cidade. E a cúpula do grande templo, onde estava a grande biblioteca era atingida em cheio, a grande cúpula e os dois minaretes resplandeciam intensamente. A luz se esparramava pela cidade de tal forma que por um instante eu tive sim a impressão que todos os telhados eram feitos de ouro. Mas não, apenas esse prédio fantástico tinha esse aspecto. O que me deixou um pouco surpresa foi o número de embarcações encalhadas nos rochedos, certamente haveriam mais ao fundo, mas ver os barcos ali avariados era assustador. Isso me fez ver que era uma travessia realmente perigosa, mas eu já estava lá, sã e salva.

Certamente se o grande farol ainda brilhasse alguns desses acidentes seriam evitados. Depois que desembarcamos fiquei sabendo que o barco ficaria ali apenas por três dias. Aquilo me exasperou, não apenas porque eu queria conhecer a cidade e visitar a grande biblioteca, mas principalmente porque três dias, seria inviável para que eu conhecesse e fizesse meus estudos com "A Agulha", o velho amigo de Gennaro e o grande mestre da arte tecelã. Enquanto caminhava ao lado de Gennaro, quebrando a cabeça por esse problema, sentia-me meio atordoada e deslumbrada pelo lugar. Eram pessoas diferentes em tantos costumes. As roupas, os rostos, os cheiros do mercado. Tudo parecia novo e fascinante.  Eu caminhava ao lado do italiano preocupada e ele mal falava comigo. Então do nada ele se virou pra mim e disse.

"Dane-se o barco! Arranjamos outro pra voltar. Eu vim aqui com você por um motivo e não saio daqui sem isso. Custe o tempo que custar."

Ele decidiu de maneira prática, e eu tive que concordar. Não estávamos lá a passeio, afinal. A primeira coisa que fizemos então, foi despacharmos nossa bagagem e avisar que não seguiríamos com eles na volta. Agora estaríamos por nossa conta e risco.

Então, Gennaro arranjou dois quartos em uma hospedaria e sugeriu que descansássemos ao menos por um dia. Ele mesmo sentia-se desgastado, e realmente era o melhor a fazer.


Ela fez uma pausa ao notar que o seu cesto de cardação estava vazio. Enquanto ela enchia novamente o cesto com a lã, Atília serviu já de maçã, gengibre e canela. A caneca fumegante foi agradavelmente sorvida pelas tecelãs, que fizeram uma pequena pausa, antes de retomar a cardação.

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--Fiandeiras


Depois da agradável pausa para beberem chá, as tecelãs retomaram sua labuta, foi Clotilde que insistiu para que Beatrix continuasse.

 - E o tal da Agulha era bom mesmo? Como era ele, ela, vai saber? Enfim, como foram as tais aulas?  - Quis saber Clotilde.

- Ele era maluco como o Gennaro? - Perguntou Laurinda.
Beatrix_algrave


Beatrix respondeu, enquanto ajeitava-se sentada ao chão sobre uma almofada, para retomar a cardação.


- O Grande Mestre era bem diferente do Gennaro. O que Gennaro tinha de nervoso e irritadiço, ele tinha de calmo e tranquilo, era a paz em pessoa. Mesmo assim, ele me fez trabalhar bem mais que o Maese Gennaro. E sabia ser um tanto cruel com os meus erros, sem dizer uma única palavra. É difícil de explicar, mas realmente foi muito difícil e aprendi muito com ele. Detalhe que aquilo que a Agulha não exprimia em palavras, Gennaro fazia questão de verbalizar. Tive que aturar dois mestres temperamentais, cada um a seu jeito.
Mas quando fazia um bom trabalho era também reconhecida e recompensada.


Ela sorriu enquanto abria as fibras da lã e as desenredava com os pentes de cardação.

- O final de tarde era sempre muito agradável. A Agulha fazia suas preces e tomávamos o "vinho árabe" que ele servia acompanhado de pão com pasta de queijo feta, tâmaras e outras frutas secas, coalhada seca, geleia de damasco e mel. Para mim era a melhor hora do dia. Adorava aquele aroma com um toque de cardamomo. Também pude visitar o mercado e comprar várias coisas. Comprei um vestido a moda árabe, mas só podia comprar um. Uma pena. Eu tentei várias vezes entrar na biblioteca, mas fui barrada. Nem eu nem Gennaro eramos admitidos ali.

No dia que comprei o vestido árabe, eu voltei lá. Nesse dia o guardião me deixou entrar, mas só um pouquinho. E o Gennaro ficou com tanto ódio, pois não o deixaram nem espiar pela fresta, ainda que ele estivesse a moda árabe também. Ele me perturbou dias por isso. Disse que eu tinha usado meus encantos demoníacos para dominar a mente do guarda. Pior que de certa forma ele até que estava certo. Mas meus encantos não são demoníacos, são abençoados. Afinal, a biblioteca era soberba. Até pude ver alguns dos livros e pergaminhos. E um escriba que trabalhava lá me indicou onde comprar alguns escritos. Pois havia um exímio copista na cidade que aceitava encomendas, mesmo de estrangeiros.


Beatrix riu lembrando da cara de abobalhado que o guarda fez, admirando-a com o belo traje de finos tecidos e barriga à mostra. Ela também tinha uma certa satisfação de lembrar dos livros que comprara para a sua biblioteca. E foi quando esteve em Alexandria que ela começou a estudar um pouco de árabe, ainda que conseguisse comprar alguns pergaminhos em grego também, idioma que ela já entendia melhor.

- Só lamento não ter visto o grande sábio, pois ele estava doente. Infelizmente, pouco tempo depois ele morreu.Uma pena. A cidade inteira ficou de luto, ao menos por um dia, tudo parou em respeito a sua partida.

Ela lembrou com pesar da morte do contemplador dos astros.




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--Fiandeiras


Laurinda comentou sorrindo na parte do guarda.

Laurinda:- E menina, você teve coragem de vestir aquela roupa na cidade? O Gennaro não teve um troço?

Elas ouviram silenciosas na parte da morte do grande sábio de Alexandria. Atília suspirou.

Atília: - Ah! A morte, mata muitas bibliotecas vivas. Uma pena. Por isso que os novos devem aprender a ser também a nossa memória, conhecer as tradições, mesmo que criem coisas novas.

A anciã das fiandeiras comentou e aquilo tinha um certo desabafo.

Beatrix_algrave


Beatrix concordou silenciosamente com as palavras da velha fiandeira. E assim, a conversação seguiu-se para histórias mais amenas em que Beatrix relatava um pouco de suas aventuras em Alexandria das coisas que viu e o que fez. Então, como sempre teve curiosidade sobre esse tema, ela o trouxe como assunto do serão.

- Sei que gostam de ouvir minhas histórias de viagens, mas sei que não foi só comigo que aconteceram coisas interessantes nesse tempo. Até hoje me pergunto o que teria se passado em minha ausência naquela antiga casa, onde morávamos e onde era também nosso ateliê. Sei que essa aventura trouxe ricos frutos, e jamais poderia reclamar do que conquistou-se daí. Mas Ninguém, e especialmente você, Atília, nunca me contou o que fez junto com Yochanan para desvendar o segredo da casa. Sei que parte da história envolvendo o plano de Apolinário Celestino em me aterrorizar eu já conheço, mas não foi só isso que se passou, isso eu sei.
Conte-nos enfim, o que assombrava a Casa dos Sussurros e como convenceu o Guardião do Tesouro a revelar sua localização e o segredo. Que segredo havia afinal? Até hoje essas questões matam-me de curiosidade. O rei Yochanan morreu sem nunca me dizer nada. Ele também era um poço de segredos, e o título que recebeu post mortem de Yochanan, o Misterioso, foi mais que merecido. Não à toa o sugeri.



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--Fiandeiras


Atília ficou pensativa uns instantes, e o silêncio tomou conta do ateliê, quebrado apenas pelo atrito dos pentes da cardação. As fiandeiras se entreolharam um momento e finalmente, Atília quebrou o silêncio.

- Isso não parecia te perturbar antes, e você recebeu o tesouro material com alegria, mesmo cheia de curiosidade. Na verdade eu até estranhei que a sua curiosidade não tivesse buscado essa resposta antes.- disse Atília. Depois de mais um tempo de silêncio pensativo, ela finalmente começou a contar um pouco do que aconteceu.

- De fato o que perturbava aquela casa não eram apenas os bandidos que serviam o Celestino. Havia mais gente interessada no que a casa escondia. E gente mais perigosa que ele. Também havia proteções sobre aquilo que eles buscavam, proteções do Outro mundo.
Um grupo de almas atormentadas por uma missão na qual lamentavelmente falharam. Foi com essas almas que tive que negociar para reaver o tesouro e levar a paz às almas e à casa.
Mas eu não fiz isso sozinha. Esperava apenas apaziguá-las com meus rituais druídicos, mas não podia simplesmente expulsá-las dali sem descobrir o segredo que guardavam.

Como era uma questão de equilíbrio entre esse mundo e o Outro, eu chamei o seu amigo prior para me ajudar. A verdade é que o prior comungou com os espíritos usando um antigo ritual que aprendeu em Bayt Ghyr Marwf e descobriu a verdade. Assim, ele conquistou a confiança dos espíritos e eles lhe entregaram os dois tesouros. Um deles você recebeu, o outro ele levou por questão de segurança. Isso trouxe a paz e o equilíbrio almejados e isso é o que importa. As correntes que prendiam essas pobres almas a esse mundo foram partidas e eles puderam ter paz, pois entregaram seu fardo a outrem. Sei que está curiosa sobre o outro tesouro, mas quando for o momento certo você saberá. Você teve paciência por tanto tempo, tenha mais um pouco. Também não venha questionar o que fiz pela sua nova visão. O que eu fiz está feito e de acordo com as minhas crenças.


Com essas palavras, Atília praticamente encerrou o assunto. Ela não parecia disposta a dizer mais nada sobre o tal segundo tesouro e muito menos o que aconteceu para que as pobres almas estivessem presas e atormentando a Casa dos Sussurros.
Beatrix_algrave


Beatrix ouviu aquelas palavras de Atília, e por mais chocantes que fossem, ela não parecia realmente surpresa.

- Por que não estou surpresa, que mesmo depois de morto, o rei Yochanan ainda me torture com os seus segredos? Tanta coisa aconteceu e eu alheia a tudo, sempre recebendo só a parte da verdade que me era conveniente.

Ela disse e sacudiu levemente a cabeça, contrariada.

- Eu vou jogar esse seu jogo, vamos ver afinal o que me espera.Algo me diz que um novo ciclo se aproxima.

Ela disse e sorriu de um jeito divertido. Ficou imaginando se realmente a morte do rei foi natural como ela supunha que fosse. Que outros mistérios afinal, o "misterioso" lhe reservara.

Assim, aquela noite prosseguiu, as fiandeiras se mantiveram animadas por mais histórias, cantigas, chás aromáticos e quitutes saborosos. Desse modo, o senhor da luz chegou no horizonte e ainda deparou-se com as fiandeiras ao final de seu ofício. Obviamente que aquelas quatro não dariam conta de toda a cardação de lã do Paço da Figueira sozinhas, mas aquele serão valera pelo calor da mútua companhia e da união daquelas mulheres.


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