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[RP] A Casa da Colina

Antonieta


Antonieta fez-se de forte. Tomara as suas decisões, arcaria com as consequências. Assim, sem cerimónias nem rodeios, com as mãos aquecidas entre as de Madalena, respondeu:

- Lorena expulsou-me de casa. Não queria ser tomada por uma igual a mim. Agora não tenho para onde ir.

Olhou Madalena nos olhos. Nada temia já.
Maria_madalena
A meretriz apertou com força as mãos de Antonieta entre as suas, tentando ganhar tempo para pensar. A situação complicara-se e o enredo adensara-se. Conhecera Lorena fazia pouco tempo, numa noite acalorada de taverna. Pelo final da noite já as duas possuíam uma certa empatia. Todavia, Lorena não sabia que fora ela quem lhe roubara Antonieta, quem lhe apresentara os caminhos do pecado. Como reagiria a isso? Certamente que mal.

No que me fui meter... - pensou agoniada, quando as mãos começaram a suar.

Não queria perder a tímida linha de confiança e amizade com Antonieta, mas também não queria condenar o relacionamento com Lorena.

O que faço? - perguntava-se a meretriz vezes sem conta.

Naquele momento de dúvida, pareceu-lhe sensato iniciar ali uma mentira. Antonieta não saberia da amizade com Lorena e esta não saberia do que fizera a Antonieta. Madalena estava no meio, era o elo de ligação entre aquelas duas mulheres, se permanecesse calada, talvez a mentira perdurasse.

Vamos, entra, podes ficar comigo. - assegurou-lhe calmamente, enquanto apanhava o punhal e depois a conduzia para o interior - Vou acender um fogo, estás gelada.
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Antonieta
Antonieta viu a hesitação e a dúvida nos olhos de Madalena, mas não deixou de a fitar. Se Madalena lhe negasse ajuda, só haveria um outro sítio onde poderia ir pedir auxílio e, pensando melhor, talvez Antonieta preferisse passar a noite ao relento do que ter de passar pela humilhação e pelos olhos desdenhosos de Júlia Campos. Era um mundo tortuoso este, o do pecado.

Entrou rapidamente, quando Madalena se decidiu. Era uma casa agradável. Sem grandes luxos, mas acolhedora. Ficou em silêncio enquanto a amiga acendia a fogueira, mas ao fim de alguns minutos, falou:

- Eu pago-te a renda. Não quero ser um impecilho. Isto é temporário. Quando arranjar um cantinho, bou para lá.

Queria deixar as coisas claras. Não pretendia viver à custa de Madalena e além disso, ruminava uma ideia desde há alguns dias. Os clientes na Babilónia começavam a ser regulares, mas Júlia Campos roubava-lhe uma boa maquia por noite. Se arranjasse um lugarzinho para si, poderia ver alguns clientes às escondidas da sanguessuga (como ela gostava de lhe chamar, quando nem as paredes a podiam ouvir).
Maria_madalena
Madalena esfregava as mãos em frente à tímida fogueira. O ambiente estava tenso e a meretriz não sabia até que ponto aquela situação não era culpa sua. Não devia ter hesitado...

A casa é minha, não pago renda. - disse-lhe com a voz baixa e o olhar sincero - Podes ficar o tempo que quiseres, gosto da tua companhia e não incomodas nada.

A meretriz puxou uma das cadeiras e posicionou-a em frente ao lume, pedindo a Antonieta que se sentasse. De seguida, colocou a velha chaleira ao lume e cortou algumas fatias do ressequido pão que estava em cima da mesa coberto por um pano. Sem fazer perguntas, untou-as com um pouco da manteiga que comprara no mercado no dia anterior e serviu-as a Antonieta. O vendedor assegurara-lhe que era fresca, mas Madalena desconfiava, ninguém comprava coisas boas por aquele preço.

Come vá, come que a noite foi longa. - a meretriz sentou-se ao lado de Antonieta e ficou pensativa por alguns momentos - Como foi a tua primeira noite? - inquiriu, sem saber bem se iria gostar da resposta.
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Antonieta
O ambiente amenizara-se. Antonieta sentou-se e aceitou a comida que Madalena lhe estendia. Estava com fome, reparou. Não comia há horas.
Sorriu ao ouvir a pergunta de Madalena e pensou um pouco. Ao fim de alguns momentos, respondeu.

- Num foi má. Já estibe com piores desde então. Mas parece que me desloquei do meu corpo, sabes? Era eu e não era eu que estaba ali. Quer dizer, o corpo estaba mas eu não.

Ficando confusa com as próprias palavras, acrescentou:

- Oh, tu sabes. As coisas melhoram com a prática. Há algum tempo que não estaba com um home, mas foi atencioso e meigo, mais do que poderia pedir, né?
Maria_madalena
Madalena conhecia aqueles sentimentos de cor e apenas assentiu com a cabeça, balbuciando palavras vagas:

Compreendo... claro Antonieta, ainda hoje me acontece...

No momento seguinte, perdeu-se em acontecimentos passados. A sua primeira noite de trabalho fora custosa, em boa verdade fora um tormento. A meretriz pouco mais era do que uma menina e, apesar de ter crescido na Babilónia, entre homens meios despidos e mulheres libidinosas, naquela tenra idade conservava ainda alguma inocência. Aquela parca pureza foi-lhe roubada cedo demais, profanaram-lhe o corpo, despiram-lhe a alma, utilizaram-na sem propósito passível de compreensão. A pequena Madalena chorara dias a fio, encolhida a um canto do quarto, não comera, não bebera, muito menos falara. Ao fim de quatro dias de luto, Júlia interviu. A monstruosa proxeneta não lhe deu outra opção a não ser submeter-se, falou-lhe carinhosamente, cantou-lhe em voz baixa naquela noite, mas deixou bem claro que se não atendesse os pedidos dos senhores, acabaria na rua. Ainda assim, Madalena acreditou que podia ser feliz.

Agora, quase dez anos depois, fora Madalena que submetera Antonieta ao tormento. O engraçado era não sentir remorsos, talvez um pouco de pena, talvez compaixão, se procurasse bem no fundo, mas nada mais do que isso. Estaria a ficar vazia? Não, não podia ser. A meretriz ainda era capaz de sentir. Tinha de acreditar que sim, ainda era capaz de preocupar-se e julgava sentir afeição por algumas pessoas. Nem tudo estava perdido.

Antonieta terminara o pequeno lanche que lhe servira e Madalena perguntou-lhe:

Não tens sono? Precisas de descansar.
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Antonieta
Antonieta terminara a refeição. Soubera-lhe pela vida. Madalena estava estranhamente silenciosa e com uma expressão dura no rosto. Depois, olhou Antonieta e sorriu. Estava a ser extremamente carinhosa com ela.

- Não tens sono? Precisas de descansar.

- Gosto da vista aqui de cima da Colina. Não te importas que vá um pouquinho até lá fora, ver a cidade e o rio?

Madalena acenou-lhe e a rapariga saiu. Sentou-se numa lastra do lado de fora da casa. Estava frio. Encolheu-se dentro da capa. O sol da manhã subia no céu. Espreguiçava-se no rio, que resplandecia com os seus reflexos. A cidade acordava. Ouvia-se o rebuliço das ferraduras dos cavalos a bater no lajedo e os pregões matinais no mercado. Risos de crianças que enchiam as ruas, subiam o monte e misturavam-se com o chilreio dos passarinhos. Antonieta respirou fundo. O mundo teria as cores que ela lhe desse.
Maria_madalena
Madalena limitou-se a assentir e ver Antonieta sair. Não interrompeu, muito menos impediu a rapariga, os momentos de solidão são preciosos e a meretriz dar-lhe-ia o tempo que fosse necessário. Ficou por instantes parada na sala, com uma xícara na mão e o olhar introspectivo fixo na porta fechada. A noite fora comprida, mas o dia avizinhava-se mais complicado. Com um esgar aborrecido, Madalena sacode aqueles pensamentos da cabeça e ocupa-se com a limpeza da casa.

Algumas horas depois...

As limpezas terminaram. Não havia um único grão de pó à vista e as louças estavam todas arrumadas no seu devido lugar. De mãos na cintura, Madalena contemplava satisfeita os frutos do seu trabalho. Por vezes desleixava-se com as arrumações, o trabalho nocturno também não lhe deixava grande disposição para limpezas, verdade seja dita. As poucas horas diurnas que passava acordada eram despendidas em paz e sossego, sem qualquer tipo de preocupação mundana.

Ah Madalena... - bufou enquanto abanava a cabeça - Casa limpa e agora estás tu suja... - soltou uma gargalhada que ecoou na divisão vazia.

Antonieta ainda não regressara. Madalena não fazia ideia se continuava pelas redondezas ou se fora até à cidade.

Já é grandinha... Pode tomar conta de si. - com um encolher de ombros esqueceu-se da ruiva e dirigiu-se até ao armário para escolher um vestido. Lá fora o sol já ia alto e o dia ameno, pelo que a meretriz escolheu um vestido vermelho de meia manga.

Com o vestido numa mão e o sabão na outra, saiu de casa para se banhar nas águas do Douro.

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Maria_madalena
Chegada ao seu lugar preferido para tomar banho, Madalena pousa os seus haveres no chão revestido de agulhas de pinheiro e folhas de sobreiro e inspira profundamente. A vegetação naquele local era extremamente frondosa e basta. Aninhada entre as inúmeras copas, a meretriz mal conseguia ver a luz do sol, com excepção de pequenos vislumbres refractários que acaso conseguiam vencer a força daquelas árvores. Tomando um momento para si, senta-se por instantes no chão, agarrando a manta morta com as mãos e retirando conforto daquele contacto puro. A sensação de satisfação é tão grande que a meretriz acaba por deitar-se e adormecer...

O despertar é suave e a mente perde de forma morosa as gavinhas que a prendem ao mundo dos sonhos. Lentamente, os seus sentidos despertam e a meretriz fica ciente do barulho que as águas gélidas do Douro fazem no seu percurso e do chilreio agradável dos pardais e melros. Num movimento delicado, estica-se e é com pesar que nota o desconforto provocado pelo chão duro e pela caruma no corpo. Os seus olhos abrem-se e Madalena estremece com a claridade. Certamente que não estivera adormecida durante muito tempo, o sol ainda ia alto.

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Zeca, o Floresta, roleplayed by Maria_madalena
Zeca andava numa das suas vigilias pelos terrenos que herdara do avô. As propriedades que detinha cobriam, no total, uns dois hectares e o homem passava os dias em constante azáfama, percorrendo os trilhos na floresta e acampando. Não gostava de estranhos nas suas terras pelo que dava o seu melhor para expulsá-los.

Naquele dia decidira percorrer as margens do Douro. Levantara-se com o nascer do sol e iniciara a longa caminhada. Parara apenas ao meio do dia para um fugaz repasto, pois as suas pernas nunca precisavam de repouso.

O caminho era feito em silêncio porque Zeca gostava de apanhar os visitantes desprevenidos. O Floresta, como era conhecido, não quer acreditar quando vê uma mulher deitada ali, na sua propriedade. Ao primeiro julga-a morta, mas o leve espreguiçar denuncia-a.


O que faz aqui? - inquire na sua voz de trovão ao mesmo tempo que salta para a frente da mulher de espada em riste.
Maria_madalena
Tal que nem uma gata assustada, Madalena levanta-se de rompante para encarar aquela voz. À sua frente está um homem de porte atlético, alto e com barba de semanas. O cabelo longo e negro cai-lhe em desalinho pelas costas e os braços estão retesados pelo esforço de segurar a espada. Tem uns olhos verdes ferozes e traiçoeiros. A meretriz julga-o um guerreiro, talvez um cavaleiro destituído.

Senhor... - chama numa voz baixa e amedontrada - Peço perdão... - dá um passo em frente e faz uma ligeira vénia - Vi... vinha apenas tomar um... um banho. - gagueja nervosamente.

Os seus olhos voltam-se para o chão. Sem o seu punhal sentia-se despida, tinha vontade de cobrir o corpo com as mãos ou sair dali a correr. Deveria ter trazido aquela pequena arma, como fora tão descuidada?!
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Zeca, o Floresta, roleplayed by Maria_madalena
Zeca olhou a bonita e assustada mulher que agora encarava o chão. Por momentos sentiu o impulso de baixar a espada, quase o fez...

Sabe que estas terras têm dono? - perguntou desta vez numa voz mais meiga.

Acercou-se da mulher.
Maria_madalena
Madalena enrijeceu ao sentir a proximidade. Apeteceu-lhe fugir, mas as pernas estavam presas, sentiu vontade de falar, mas da boca não saiu som algum, queria mostrar-se forte, mas as mãos tremiam. Desesperada, olhou por cima do ombro do homem, tentando arquitectar uma fuga, pensar numa forma de o distrair, não se lembrou de nada. Tinha a mente vazia, corrompida pelo pânico. Foi nesse instante que se apercebeu da sua exagerada fragilidade e a respiração tornou-se difícil.

Não, não... se..senhor... desculpe... não sa... sa... sabia. - balbuciou aos tropeções - Deixe-me ir, prometo não vol... vol... voltar.
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Zeca, o Floresta, roleplayed by Maria_madalena
Por fim, Zeca baixou a espada e embainhou-a. Certamente que aquela mulher não constituiria um perigo para as suas propriedades. Podia ver o medo nos belos olhos castanhos e sentir a ansiedade na sua voz. Como é que uma mulher de constituição física tão frágil poderia alguma vez magoá-lo? Numa tentativa de a recompensar por tal inquietação de espírito, aproximou-se para lhe tocar a mão. A jovem deu um passo para trás e Zeca parou, temendo que fugisse. Não pretendera assustá-la tanto. Bem sabia que por vezes agia de forma exagerada quando encontrava alguém nos seus terrenos e ninguém o preparara para lidar com uma mulher.

Desculpe, não pretendia atemorizá-la desta forma. - vendo a dúvida no rosto da jovem acrescentou - Não lhe irei fazer mal, desculpe.
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Maria_madalena
Madalena tinha ainda a desconfiança no olhar. A tentativa de a tocar deixara-a ainda mais receosa. Quando o corpo dele assumiu uma posição mais relaxada, a meretriz vergou-se lentamente para apanhar o vestido e o sabão.

Vou-me embora. - disse cautelosamente e voltou-se para partir.
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