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Vila Cruzeiro [RP]

Dalur


Próximo as terras de Santarém, entre esta e a cidade de Montemor, um pequeno vilarejo começa a se desenvolver. Terra antes que pertencia a um grupo de bandidos, agora começa a se preparar para receber camponeses de todas as partes do Condado, pessoas em busca de um novo começo, um novo lar para seguir suas vidas. Campos começam a mostrar os primeiros vestígios de plantações, animais crescem gordos em seus currais, construtores erguem casas simples até onde a vista alcança.

No centro de tudo, uma enorme e imponente mansão se ergue, são vários metros quadrados de construção, telhas reluzentes sob a luz do sol e paredes tão brancas como granito. Algumas janelas são vistas, construídas com finíssimas madeiras. Um largo jardim se estende no lado norte da mansão, com toda sorte de árvores e um pequeno pomar ao fundo, também fora semeado diversas flores em pequenos canteiros onde poderiam ser apreciadas por bancos colocados pelo caminho. A oeste da mansão, um estábulo fora erguido para abrigar quatro belos cavalos, três deles de passeio, sendo o último um belo corcel de batalha. A leste, algumas edificações estavam dispostas, tais como as moradias dos servos, armazém, uma ferraria, dormitório dos soldados, dentre outras construções. A frente da mansão, uma área com o chão coberto de pequenas pedras talhadas se estendia, estátuas estavam dispostas, como guardiões silenciosos do local, uma pequena fonte no centro também decorava o local.

Entrando pelas grandes portas de Mogno, a direita estava a sala de jantar com uma longa mesa de carvalho e suas respectivas cadeiras, totalizavam dezesseis. Também na sala de jantar, havia uma porta que direcionava para a cozinha da mansão, onde tantos empregados trabalhavam para satisfazer o apetite dos que comiam. A esquerda da entrada, estava o salão de eventos, era magnificamente grande e esplendorosamente glorioso, dois belos lustres proviam a iluminação no recinto, também se via diversos móveis, de vários reinos pelo mundo. O salão tinha uma porta que direcionava a uma pequena sala de estudos, onde havia uma mesa com uma cadeira, tinteiro e penas, vários outros móveis também se faziam presentes e, era usado pelos servos como despensa durante os eventos que aconteciam, uma espécie de antessala. Uma pequena porta que permanecia sempre trancada tinha uma escada que levava a cômodos subterrâneos, apenas uma pessoa possuía a chave daquela porta.

Subindo a longa escadaria, a direita estava os mais diversos quartos, local para os hóspedes descansarem. A direita, um escritório no extremo sul, onde havia uma escrivaninha com cadeira, várias estantes e outros apetrechos. Ao lado do escritório, o quarto principal, onde uma grande cama onde caberia ao menos cinco pessoas se encontrava, um armário, algumas estantes, duas mesas pequenas e uma janela adornada com uma bela cortina completavam o aposento. Outros cômodos também existiam, e ainda havia um sótão onde guardavam-se objetos pela ordem do barão.

Cruzeiro, uma bela vila, calma e serena. Lugar de descanso e tranquilidade, que começava a mostrar indícios que seria uma cidade de renome um dia. A mansão, era seu centro administrativo, seu governante era o titular do recém criado Baronato do Cruzeiro, atualmente título ostentado por Dalur de Souza Mello Medeiros-Monforte. O brasão do mesmo estava colocado em vários pontos da mansão, inclusive acima da porta principal, e por lá permaneceria por tempo indeterminado!



A vila Cruzeiro é o local de residência do personagem Dalur, caso alguém queira interagir fique a vontade, é um RP aberto a todos. Mas tenha em mente que tudo se passa dentro do baronato, portanto, adequar as ações para uma pequena vila. Sejam todos bem vindos
Dalur


Dalur chegou com seu coche a mansão, já era hora avançadíssima e o sol já começava a dar sinais que iria erguer-se aos céus e iluminar a escuridão. Tirou algumas moedas e deu ao condutor do coche, uma forma de comprar seu silêncio, não queria que a noticia se espalhasse, mesmo estando certo que cedo ou tarde isto haveria de acontecer. Desceu do transporte, foi até a entrada da mansão, entrou sem fazer barulho algum, tão logo adentrou a residência, tirou as botas para evitar qualquer barulho.

Visitou cada quarto da mansão e viu que todos ainda dormiam, ninguém havia notado sua ausência neste horário tão incomum, o que era um bom sinal. Foi até seu escritório, precisava pensar um pouco. Abriu a porta que dava acesso até a pequena sala e adentrou, colocou as botas ao lado da mesa e sentou-se na confortável cadeira.

Em sua mente, os acontecimentos daquela mesma noite que Franciko e Kub o acompanharam remoeram em sua memória, sabia que a maior parte iria considerar aquilo funesto e corrupto, mas ele não se importava com tal pensamento, algo estranho para quem havia levado a vida de maneira tão idônea. Levantou-se e foi até a janela, com algum esforço abriu-a deixando a noite dedilhar lhe a pele com seu toque gélido, por um momento pensou ter a companhia da própria Tiria.

Puxou o ar em seus pulmões para desvencilhar daqueles pensamentos, por mais que seus pais tinham-lhe ensinado os caminhos socialmente morais e puros, suas ações começavam a levar-lhe para um outro caminho, um talvez um pouco mais obscuro? Não importava!

Sim, não importava realmente, um sorriso malicioso formou em seus lábios enquanto admirava o raiar do dia. Pássaros anunciavam o astro solar erguendo-se acima das nuvens, e subitamente lembrou-se que aquele era o dia do casamento de seu irmão, Breft. Por um momento considerou seu próprio casamento que a pouco tempo fora celebrado, não fazia nem mesmo um ano que contraiu o matrimônio, e ainda assim perguntava-se como podia um homem transformar-se em tão pouco tempo!

Virou-se, em cima da mesa uma garrafa com algum vinho estava tampada, havia levado aquela garrafa alguns dias atrás quando precisava concentrar-se em levantar os gastos e receitas do baronato. Agora ela serviria outro propósito, uma comemoração ao fato de um renascimento, oh sim, era isto que ele experimentaria, renascimento!

Encheu um copo que ali se encontrava, ignorou o costume de ter uma taça como receptáculo de tal bebida, o gosto seco daquele líquido passou-lhe a garganta e aqueceu o peito. Olhou entre as estantes, em um espaço onde havia construído um pequeno altar com tanto cuidado, feito com suas próprias mãos, uma das seis estatuas que lá estava era de um ser, coberto com um manto e capuz, um rosto humano podia ser notado se bem observado.

- Azura...

Pronunciou baixo, sua voz um tanto trêmula denunciava a identidade daquele objeto, ou a quem este representava. Verteu o conteúdo do copo não deixando nem uma gota sequer, pousou o recipiente onde o havia tirado e puxou o ar da noite uma vez mais, foi até o pequeno altar e fitou a estátua.

Lembrou-se de palavras que o impulsionaram a provar de um lado obscuro de sua personalidade, algo que destoava daquilo que por tantos anos acreditara ser o correto. Certamente não era a primeira vez que teve contato com aqueles ensinamentos, mas foi na noite anterior que realmente vivenciara aquilo. Oh sim! Ele estava transformado, uma nova pessoa, e as mesmas ideias que lhe instigaram para o lado obscuro e oculto da vida se formaram novamente em seus lábios

-Não há bom nem mal, nem coisa vil ou virtuosa, tudo que existe são escolhas, caminhos tomados e suas consequências. Poucos são aqueles que tem a coragem de desbravar os caminhos ocultos, e são para estes poucos que estão reservados os segredos da vida e o alcance do pleno potencial de cada um.

Uma corrente de vento adentrou a janela agitando as folhas sob a mesa, um frio subiu-lhe a espinha e o fez endireitar sua postura, diante disto, Dalur sorriu. Pareceu-lhe um segredo descoberto, algo que poucos haviam ousado desvendar, algo oculto na vida que lhe havia sido revelado, sentia-se novo. Indo até a janela, abriu os braços e recebeu o calor do novo dia, fechou os olhos e algo pernicioso moldou as linhas de sua boca.

- Não há bom nem mal.

Repetiu para si mesmo como se dissesse a sua alma. Abriu os olhos e enxergou o mundo de maneira diferente, suas cores estavam ressaltadas, seu resplendor era glorioso como nunca havia visto dantes.
Dalur


O barão ordenava diferentes coisas aos servos, arrumem a bagunça daquele cômodo, tragam tintas frescas, lavem as cortinas, façam a prataria reluzir, arrumem os quartos. Era um dia movimentado no feudo, não haviam recebido visitas, e era um acontecimento inédito alguém que la fosse.

Tirou alguns cruzados para compra de mantimentos extras, também conseguiu um tonel de vinho francês com alguma dificuldade, pagando três vezes mais que normalmente o faria, mas dificilmente encontraria outro exemplar. Enfim, tudo organizava-se para a recepção da artista convidada por ele.

- Diga aos guardas que fiquem postos e avisem quando avistarem a dama - Ordenou o barão a um dos servos.

De seguida, foi até seu escritório certificar-se que estava trancado, era seu cômodo pessoal, e onde também havia vários tomos antigos e o pequeno altar aos deuses. Não poderia arriscar deixar tudo a mostra, uma vez que não sabia ao certo a crença de Beatrix, nem o extremismo da mesma. Quando tudo estava pronto, dirigiu-se até o primeiro andar onde sentou-se e começou a ler um livro, escrito por um desconhecido autor chamado Fernando Freitas, que narrava a vida dos portugueses nas terras britânicas.
Beatrix_algrave


Conforme acertado, no dia e horário marcados, Beatrix viajou até o feudo do Barão do Cruzeiro. Como havia a necessidade de levar material de pintura como tintas, pinceis, algumas telas, seu bloco de rascunhos e algumas pinturas de pequeno vulto, preferiu viajar de carruagem. Felizmente era uma viagem curta, e o percurso foi tranquilo e sem percalços.

Assim, ela anunciou sua presença, e a carruagem entrou na propriedade do barão, parando em frente a sua residência. Beatrix desceu da carruagem, auxiliada pelo cocheiro. Ela vestia um traje escuro de preto e vermelho, como o tempo esfriara ela usava uma capa escura e luvas que encobriam as suas mãos. Após descer, ela instruiu o cocheiro para ajudá-la com seus materiais, protegidos em bolsas de couro.

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Dalur


Um guarda qualquer veio informar que a convidada havia acabado de chegar, o barão fechou o pequeno livro e encarregou um servo de colocar o mesmo no local devido. Ajeitou sua camisa de linho e foi até a frente de sua casa recepcionar a dama, saiu de braços abertos para a saudar

- Seja mui bem vinda Beatrix, é com imenso gosto que a recebo.

Pegando a mão da dama, beijou-a como de costume, e de súbito sente o vento frio cortar-lhe a pele, ignorando a roupa leve que usava. A diferença entre a sensação térmica dentro e fora da casa era assombrosa!

- Espero que tenha feito muito boa viagem. E vejo que trouxe suas ferramentas, havia ordenado aos meus servos que conseguissem tintas, pinceis e outros apetrechos, também poderá servir-se deles. Mas onde estão meus modos? Entremos, está terrivelmente frio aqui fora. Vocês dois, não fiquem ai parados e ajudem a dama com suas bagagens!

O barão fez um gesto convidativo a dama para adentrarem a residência, onde o calor e conforto o fariam esquecer aquele frio que lhe afligia. Insistiu que a convidada não levasse uma só bagagem consigo, antes deixando ao encargo de seus servos carregarem-nas para ela
Beatrix_algrave


Beatrix recebeu os cumprimentos do Barão e fez uma vênia em agradecimento.

- Muito grata, Dom Dalur. Trouxe minhas tintas, pois são as que estou habituada a usar. Foi uma ótima viagem até aqui. Esfriou repentinamente, mas sempre trago uma capa comigo, pois nessa época é comum isso ocorrer.

Ela comentou enquanto notava os criados levando a bagagem. Aceitou o convite de Dom Dalur para entrar, pois de fato esfriara e o vento gélido em seu rosto incomoda um pouco.

Depois que adentrou a residência, retirou a capa e as luvas e entregou a um dos criados. Afinal, no interior da residência do barão eles não eram necessários, graças ao calor que a lareira acesa proporcionava.

Ela observou com atenção o espaço da residência e a forma como estava decorada e que fornecia informações sobre as preferências estéticas do barão e que poderiam auxiliar em seu trabalho.

- É uma bela casa, sem dúvida.

Comentou e deixou que ele conduzisse a conversa sobre o motivo de tê-la chamado.

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Dalur


O barão começou a apresentar os cômodos térreos da casa, um pouco para habituar a artista ao ambiente, e também para conversar sem que fosse necessário ficar parado, algo incômodo pois precisava se aquecer.

- Esta casa foi construída a poucos meses, não devem fazer mais que dois que foi concluída. Todo este território era, outrora, um acampamento usado por bandidos. Assim que recebi a gratificação do título, tornou-se logo um baronato, mas está em seus primórdios, há tantas coisas para serem feitas... Como por exemplo um novo móvel ali, e uma extensão para aquela região, também algumas construções exteriores.

Caminharam até chegar a um amplo salão, ao qual o barão usaria para dar festas e bailes, assim que tivesse terminado as obras necessárias, e também dispusesse de tempo.

- Bem, aqui é o salão de festas, ou como queira chamar. É sem dúvida, o maior cômodo da casa, e também um motivo de orgulho pessoal. Tenho dois belos lustres no teto, belas janelas feitas a partir de carvalho, algumas armaduras para decorar, sem mencionar o espaço... Mas não nota que algo esta em falta? Não só aqui como em todos os lugares da casa? Não há, sequer, um único quadro, nem uma obra de arte que embeleze o local. Ora, não posso continuar a viver desta maneira, portanto, pela qualidade de vosso trabalho, teria muito gosto se pintasses alguns quadros para emoldurar e expor nestas paredes mortas e sem vida, o que me diz?
Beatrix_algrave


Beatrix acompanhou o barão até o amplo salão de festas. De fato o ambiente carecia de um toque artístico. Não só de quadros, mas talvez de alguma bela escultura.

- Entendo. Lembro-me bem de quando estive na festa de inauguração da Ordem da Bússola de Ouro em Óbidos. O conde de Óbidos possui uma coleção invejável. Deve ter demorado anos e anos para adquiri-la, mas tudo precisa ter um começo.

Ela comenta lembrando da situação embaraçosa que passou durante a festa, e em seguida propõe.

- Posso atender ao seu pedido e fazer alguns quadros para ornamentar a vossa propriedade e trazer mais beleza e requinte a esse espaço. Sugiro que procure também um escultor para criar estatuetas para somar-se aos quadros. Não esqueça que também sou tecelã, e poderia providenciar algumas cortinas e tapeçarias de meu atelier. Quanto aos quadros, o que o senhor teria propriamente em mente?

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Dalur


O barão escuta tudo com grande interesse, ainda não havia considerado a ideia de estatuetas, a não ser as pequenas em seu escritório, mas estas não eram para olhos públicos. E quanto as cortinas, realmente carecia de algumas melhores, já que estas havia trago de sua anterior residência.

- Exatamente Beatrix, fico contente que compreendas o meu desejo. Tenho a visão de uma grande coleção de arte em cada canto desta casa, e que um dia hei de fazê-la tornar-se uma fortaleza. E pelas observações que fizestes, tenho certeza que o gosto meu pela tua arte foi acertado.

Caminhando até uma extremidade do salão, o barão examinava as paredes, e em sua mente via com clareza as mais diversas peças de arte que um dia ali estariam. Voltando-se em direção a dama que o observava, prosseguiu.

- Meu desejo, referindo-se aos quadros, é que sejam variados, com bastante diversidade entre eles. Paisagens de locais exóticos, talvez algumas figuras metafísicas, de figuras femininas também seria agradável, cenas de banquetes, e se não consideras muito narcisismo, teria gosto de algumas pinturas sobre a minha pessoa.

Tentando parecer natural quanto ao pedido, e já observando a reação da pintora, resolveu trazer um outro assunto para esconder sua ansiedade.

- Já agora mencionastes as esculturas, achas mesmo que ficaria bom colocá-las dentro da casa?
Beatrix_algrave


Beatrix ia ouvindo e anotando mentalmente o que o barão Dalur ia informando sobre o seu interesse em arte e o que pretendia.

- Certamente que esculturas para decoração do interior da casa devem ter uma dimensão menor que peças para espaços amplos como jardins, por exemplo. São peças mais delicadas. Mas há uma variedade que poderia servir, como peças de arte sacra, ou meramente decorativas. Há um retorno do gosto pelo clássico atualmente em voga, como representações de divindades gregas, ninfas, faunos, enfim.

Ela em seguida focou a atenção novamente nos quadros, que era o objetivo de estarem ali conversando.


- De modo algum, não vejo narcisismo de vossa parte, pois é bem comum que o senhor do feudo seja retratado e que sua figura seja assim exposta em sua propriedade. Eu vejo como um registro histórico. Certamente será uma grande responsabilidade, mas creio que poderei retratá-lo. Apenas preciso de tempo para analisar de que maneira isso poderia ser feito e qual lhe agradaria mais.

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Dalur


Escutando as palavras de Beatrix, conduziu-a para fora do salão, pondo-se a andar novamente. Enquanto conversava com a dama, ia formulando em sua mente como lhe transmitiria a forma como gostaria de ser retratado. Não era um pedido natural, mas ele entendia esta como uma arte mais elevada que as demais, e portanto, não poderia deixar de lhe explanar isto.

- Bem Beatrix, já que concordas com o que lhe disse, gostaria de falar-lhe por mais alguns instantes sobre meu desejo. Como dissestes, se precisas de algum tempo para preparar a arte que encomendo a ti, gostaria de oferecer um dos aposentos do baronato. Esta residência possui alguns quartos, especialmente destinados as visitas que um dia receberia, é de muito gosto que dou-te o convite de ficares o tempo que necessitares para concluir a arte.

Chegando até a escada, ele pensou um pouco deixando um silêncio constrangedor antes de falar algo, as próximas palavras eram um tanto constrangedoras, e não sabia bem qual a reação da dama Beatrix ao escutá-las, mas não saberia ao certo sem arriscar, então respirou fundo e as proferiu.

- Uma delas, gostaria que fosse... bem, de uma forma natural, se é que compreendes. E quando digo natural, refiro-me a ter uma arte desnuda de mim mesmo. Pode soar um tanto estranho, e entenderei se quiseres deixar para depois, ou algum tempo para considerar o assunto, ou mesmo se recusares a pintar-me de qualquer maneira.

O barão ficou olhando seus olhos, tentando entender a reação que seguiria.
Beatrix_algrave


Beatrix acompanhou o barão Dalur, deixando o amplo e vazio salão. Continuou ouvindo com atenção as ideias que ele tinha em mente, buscando imaginar como poderia contribuir.

Ela notou que o barão parecia pensativo, como se houvesse algo que ele desejasse falar mais não encontrava as palavras adequadas, até que por fim, ele começou novamente a falar sobre o que almejava de seu trabalho artístico.

Ela concordou com o convite de permanecer ali, pensou que três dias seriam suficientes para adquirir as informações necessárias e desenvolver os rascunhos que serviriam de base aos seus trabalhos artísticos.

Foi então que ao conduzi-la até a escada o Barão quedou-se em silêncio, parecia constrangido quando por fim falou o que o perturbava.

Enquanto ele explicava em pormenores o seu desejo, olhava Beatrix nos olhos como se desejasse avaliar a reação da artista diante daquele pedido um tanto incomum.

A expressão do rosto de Beatrix conservou-se calmamente inalterada, mas os seus olhos que nada escondiam, eram uma mistura de surpresa e incredulidade. Passou alguns instantes por sua mente os boatos sobre a loucura e senilidade do barão. Estaria ele de fato maluco? Mas ela procurou se acalmar. Aquilo não era usual. Nobres normalmente desejavam ser retratados em armaduras e trajes suntuosos. Um que desejasse tal pintura, era verdadeiramente uma novidade. Havia quadros de nus artísticos, mas a maioria era de modelos anônimos que eram pagos pelo artista para posar. Alguns artistas faziam seus esboços com base na anatomia de cadáveres para alcançar detalhismo e precisão, e tanto uma coisa como a outra eram muito mal vistos pela igreja.

Beatrix ficou intrigada com aquele pedido. Normalmente a reação seria esbofetear o barão até a morte, mas ela não estava ali apenas como mulher, estava ali acima de tudo como artista. Então, ela perguntou intrigada, mas já recuperada da surpresa.

- Barão Dalur, não é de fato algo usual um nobre desejar ser retratado assim. É uma exposição que para muitos pode ser incômoda e difícil. É necessário ter muita confiança no artista para tal. Preciso entender melhor suas motivações. O que o senhor teria em mente, o que quer expressar através do quadro?

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Dalur


A reação de Beatrix foi de surpresa, e como não seria? Afinal os tempos eram morais, e a Igreja certamente em nada contribuía para a situação ser melhor, era este um dos motivos para o barão conservar em seu escritório, a estatueta de seus deuses. Estes a ele nada impedia, ao contrário, jogava-o de encontro a completar suas paixões, por mais tolas e sem sentido que pudessem parecer aos outros.

- Bem, confesso que antes poderia pedir-vos que retratasse como um cavaleiro pesado em sua armadura dourada, ostentando uma cruz no peito ao resgate de uma donzela, ou mesmo ainda para abater um demoníaco dragão. Mas que proveito teria isto? Uma cena fantástica de pura hipocrisia penso eu, não que dispense tal retratação, e até tenho uma parecida em mente. Mas deixe explicar-lhe melhor.

O barão girou sob seus pés e andou um pouco de um lado para o outro, pensativo enquanto pensava no que dizer, e também para ocultar o rosto enrubescido.

- Na antiga Grécia militar, tinham o costume de retratar seus heróis na forma do nu, não porque cultuavam os corpos, ou mesmo desejassem-nos, havia outra razão. Infelizmente, desde que a dita Igreja Aristotélica estendeu sua influência sobre os quatro cantos do mundo, tem se uma aversão a tal prática, considerando-a vil e mal vista.

Fazendo uma pausa, o barão segurou em suas mãos um vaso, recordando-se que aprendera, de seu tutor na universidade, que na antiga Grécia pintavam os heróis em nu em vasos de cerâmica. Tornando a pousá-lo na mesa, prosseguiu.

- Um erro sem tamanho aparente, minha dama, eu vos digo. Um erro pois qual o ser humano que nasceu vestido em lã e linho? Qual dentre nós não saiu desnudo do ventre materno? E haveria neste mundo, coisa mais inocente e singela que uma criança? Sinceramente não consigo perceber porque tamanha aversão tem nossa sociedade a isto, parece-me demasiadamente hipocrisia.

Fazendo breve pausa, continuou

- Perguntas-me a razão para requerer uma pintura em tais moldes, eu vos digo. Para ter um retrato de quem realmente sou, sem as fantasias e enfeites que sempre nos vestimos. Em um fundo natural, um jardim ou qualquer coisa do gênero, para ver na pintura meu estado original. Apenas minha pessoa, em meio a natureza não tendo nada a esconder, quero que faças uma pintura de minha liberdade. Um retrato do que é realmente ser livre, de tudo isto, desta moral, de nossas normas, de nossos costumes, simplesmente ser livre. Seria realmente, tamanho pedido incomum tal coisa?
Beatrix_algrave


Beatrix acompanha com atenção a exposição de Dalur, notando mais que a sua oratória e a sua expressão corporal, seu gestual. Nota que ele não a olha enquanto expõe, talvez por que se sinta envergonhado de algum modo, diante do peso social que o seu desejo representa.

- Os gregos de fato não viam nisso um problema, para eles não era incomum nem pouco usual. Na arte grega que buscava o ideal estético da perfeição, a arte era um reflexo da vida. Mas de fato na nossa época é um tabu. Noto-o enrubescido e hesitante, por isso quero saber se está certo de que é isso que quer. O senhor é um nobre, e estes raramente querem o que o senhor almeja. As vestes e as pompas são signos de poder, de destaque. Eu mesma não deveria usar esse colar, se as leis de nobreza fossem rigorosamente seguidas, pois é de ouro e eu sou plebeia. Se o senhor quer a realidade crua, nua e sem adereço eu posso lhe dar. Só queria me certificar se o senhor está pronto para isso. Essa liberdade tem seu preço. Se não se incomoda em pagar, farei seu quadro como desejas.

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Dalur


O barão absorvia as palavras da dama, sem deixar de notar o colar quando este fora mencionado. Deveras era uma joia bela, superando muitas que a baronesa possuía, esta que encontrava-se enferma. Considerando o desejo mais uma vez, prosseguiu.

- Sim, é isto que desejo. Não sei dizer se hei de pendurar aqui, a toda vista, ou mesmo se estará exposto apenas aos mais conhecidos, mas tenho ardente desejo por esta obra, nada irá mover-me disto. Se os nobres sempre desejam demonstrar seu poder, a mim tal é indiferente, afinal a que levamos a ostentação? Tudo resume-se ao momento, e a cumprir paixões e vivenciar experiências, no demais é tudo coisas vãs e tão importantes como a areia que pisamos.

Vendo que começava a discursar, o barão interrompe e chama uma das criadas.

- Está é Maria, esta criada ficará a tua disposição. Acredito que tomei demasiado tempo seu. Bem, deixarei que descanses, e assim pense na proposta. Se for do teu gosto ficarei contente, se não for faremos as outras artes. Fique a vontade se quiser recolher-se aos aposentos, mas se quiseres dizer algo ou comer, fique totalmente a vontade.
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